O conjunto de práticas e critérios que definem o desempenho de empresas para além do financeiro é chamado, atualmente, de ESG. A sigla vem do inglês – Environmental, Social and Governance – palavras que, traduzidas para o português, querem dizer “Ambiental”, “Social” e “Governança”.
Soltos, esses termos talvez não façam tanto sentido à primeira vista, mas é interpretando-os no contexto do mercado que você consegue entender sua importância: só ao analisá-los, uma organização conseguem, de fato, enxergar riscos e oportunidades holisticamente.
O ESG considera mais do que o lucro, e diz respeito a como uma empresa opera, com quem se relaciona, que impactos gera e quão preparada está para continuar existindo (e progredir!) em novos cenários.
O espaço deste artigo foi aproveitado para uma abordagem mais profunda do tema, visando auxiliar você, leitor, na execução de mudanças importantes em 2026.
O que significa “ser ESG” hoje? Visão de mercado
Aquela sustentabilidade teórica ficou no passado e, já há algum tempo, empresas que são ESG, de fato, reconhecem que impactos ambientais e sociais de suas decisões, bem como suas estruturas de governança, têm consequências diretas em várias frentes.
Essas empresas sabem que riscos corporativos, reputação, resiliência frente em momentos de crises, capacidade de atrair investidores e clientes, potencial para reter talentos, dentre outros aspectos, são influenciados pela maneira como elas se comportam dentro das três letras da sigla.
A adoção de critérios ESG no mercado hoje, portanto, é um reflexo da crescente demanda dos stakeholders como um todo por transparência, responsabilidade e longevidade nos negócios.
“Além disso, o ESG já se tornou parte da contabilidade corporativa global, em decorrência da publicação das normas IFRS S1 e IFRS S2 pelo International Sustainability Standards Board (ISSB)”, lembra Alex Anton, consultor e mentor estratégico com vasta experiência no universo corporativo.
Essas normas orientam as empresas de todo o planeta a divulgar informações de sustentabilidade e riscos climáticos de forma padronizada, integrando dados aos relatórios financeiros.
E quais os pilares de uma empresa ESG na atualidade?
Para que qualquer organização consiga estruturar a sigla de modo consistente, os três princípios básicos que dão origem à sigla precisam estar integrados, assim como todos os seus desdobramentos:
Pilar ambiental (E)
Foca em: gestão do impacto sobre o meio ambiente, uso de recursos naturais, emissões, resíduos, mudança climática, eficiência de recursos
Exemplos de ações: redução de emissões de CO₂; uso eficiente de água/energia; gestão de resíduos; economia circular; cadeia de fornecimento de baixo impacto
Pilar social (S)
Foca em: relações com colaboradores, comunidades, fornecedores, clientes; direitos humanos; diversidade e inclusão; saúde e bem-estar; impacto social
Exemplos de ações: políticas de diversidade e inclusão; segurança e saúde no trabalho; programas de bem-estar; práticas trabalhistas éticas; envolvimento comunitário; respeito aos direitos humanos.
Pilar de governança (G)
Foca em: estrutura de liderança, ética, transparência, compliance, processos de tomada de decisão, controle interno, transparência de resultados
Exemplos de ações: código de conduta; compliance; auditorias; transparência nos processos; governança clara; divulgação de relatórios; responsabilidade e prestação de contas
Mas, atenção: só consegue definir por onde começar e qual caminho seguir quem garante foco no que realmente importa para os stakeholders e para o negócio, coerência e transparência nos números e relatórios e incorporação do ESG à estratégia corporativa.
“Materialidade, transparência e integridade estratégica são essenciais para empresas que querem garantir uma postura ESG que não dependa apenas de documentos e políticas, mas também da maturidade de seus gestores e da coerência de suas lideranças, que são as verdadeiras responsáveis por transformar princípios em prática cotidiana”, reforça o mentor detentor deste blog.
Empresas vs. gestores e líderes ESG: distinguindo-os na prática
Um não vive sem o outro, mas empresas, gestores e líderes têm papeis e desafios diferentes no que diz respeito à adoção de metas ESG. É importante você compreender isso antes de seguir em frente.
- Entenda a empresa como instituição → “Quem” adota práticas, políticas e processos e a quem estarão vinculadas as métricas e os relatórios; a estrutura organizacional e operacional do ESG
- Enxergue gestores como tomadores de decisão → Ou seja, como as pessoas que traduzem diretrizes em escolhas diárias, priorizam recursos, analisam riscos, aprovam processos e garantem que as metas ESG saiam do papel
- E tenha os líderes como operadores fundamentais → Aqueles que vão mobilizar equipes, sustentar a cultura e garantir que as práticas ESG sejam vividas no comportamento, na comunicação e nas relações internas e externas; pessoas de confiança dos gestores, que acabam conectados a eles por influenciarem decisões e/ou direcionam esforços
Sem gestores e líderes comprometidos, políticas ESG institucionais tendem a ser simbólicas. Sem uma estrutura organizacional, mesmo com gestores e líderes bem intencionados, dificilmente a empresa consegue transformar o ESG em parte concreta do seu dia a dia.
“Enfim, é na interseção entre empresa, gestão e liderança que o ESG deixa de ser teoria e vira prática, afetando as decisões de compras, a escolha de fornecedores, a cultura interna, a priorização de recursos, a comunicação etc.” — Alex Anton
Como aplicar o ESG no dia a dia de uma empresa? Sua agenda 2026
Do diagnóstico ao monitoramento, são sete os passos básicos para a criação de uma agenda ESG, e você pode começar a dá-los hoje para construir uma trajetória mais consistente, estratégica e responsável para o seu negócio já nos próximos meses.
1. Comece com um bom diagnóstico
Analise os impactos e riscos ambientais, sociais, de governança da empresa. Separe os que são materiais, ou seja, que realmente importam para stakeholders, comunidade, reguladores e para a viabilidade do negócio.
Fazer isso evita desperdício de esforço, direciona foco para o que realmente gera impacto e garante que as próximas etapas do ESG sejam sólidas e alinhadas à realidade da empresa.
2. Defina prioridades
Com base no seu diagnóstico, selecione o que for mais relevante para a empresa no momento. Considere impacto, urgência, riscos associados, capacidade de execução e expectativas dos stakeholders.
Assim, ficará mais fácil definir onde concentrar energia, recursos e ações, garantindo que o ESG avance com lógica e prioridade.
3. Crie suas metas ESG
Para cada prioridade, defina metas claras e realistas, específicas, mensuráveis e alinhadas à capacidade da empresa. Defina prazos também (curto, médio e longo), sempre a partir de dados históricos, benchmarks e projeções reais.
Considere que:
- Curto prazo cobre ajustes iniciais
- Médio prazo envolve mudanças estruturais
- Longo prazo abrange transformações culturais ou tecnológicas
Volte aos exemplos de ações catalogados no tópico sobre pilares ESG e utilize-os como inspiração, se desejar.
4. Escolha indicadores para medir o desempenho das ações
Defina também os KPIs ESG e, portanto, as métricas que lhe permitam acompanhar o progresso de cada prioridade previamente selecionada.
Como fazer isso? Pergunte-se “qual número vai mostrar se eu estou avançando?” e, então, relacione cada meta a um indicador que realmente demonstre evolução. Prefira métricas objetivas, auditáveis e simples de monitorar, pelo menos no início. Aqui estão sugestões:
Ambiental
- Emissão de CO₂
- Pegada de carbono estimada
- Consumo de energia elétrica [ou] combustível
- Consumo de água
- Volume de resíduos gerados
- Taxa de reciclagem
- % de fornecedores com práticas sustentáveis
Social
- Taxa de diversidade e inclusão
- Turnover voluntário
- Retenção de talentos
- Taxa de acidentes/incidentes no trabalho
- Satisfação dos colaboradores
- Engajamento dos colaboradores
- Ações de saúde e bem-estar
- Impacto na comunidade
Governança
- Criação de políticas de compliance e ética
- Adesão às políticas internas criadas
- Funcionamento de canais de denúncia
- Auditorias regulares (internas e externas)
- Transparência em relatórios e divulgação de dados
- Aderência a padrões internacionais, se aplicável
5. Trace seu plano de ação
Finalmente, para cada meta, determine responsáveis, recursos, cronograma e periodicidade de monitoramento, criando seu plano de ação.
Um bom plano descreve o que será feito, por quem, quando, com quais recursos e como a cada iniciativa será medida. Organize tudo em etapas, estabeleça checkpoints e garanta que cada um dos responsáveis saiba exatamente qual função têm no processo.
“Quanto mais claro seu plano de ação, mais executável”, lembra Alex Anton.
6. Comunique-se interna e extremamente
Compartilhe com colaboradores, fornecedores, clientes e parceiros as metas, as políticas, as responsabilidades e os critérios ESG adotados pela sua empresa. Faça isso pensando em engajar, alinhar expectativas e evitar ruídos.
Ainda, é altamente indicado criar canais de transparência, denúncias, dúvidas e acompanhamento de resultados, porque isso reforça confiança, ética e governança, pilares essenciais do “G” da sigla.
Esclarecer objetivos e políticas será fundamental para criar coerência e reforçar a cultura.
7. Monitore os dados, revisando-os constantemente
Por último, mas não menos importante, monitore e registre dados regularmente, comparando a evolução com as metas e identificando padrões.
Alex Anton sugere uma revisão trimestral ou semestral dos números, enfatizando que análises em períodos mais curtos permitem correções rápidas, enquanto as realizadas em períodos mais longos permitem avaliar tendências sem os ruídos do curto prazo.
“Empresas que medem esses KPIs consistentemente podem construir um painel ESG interno que vai funcionar como um dashboard de gestão, trazendo informações objetivas e confiáveis o suficiente para avaliação de desempenho, vulnerabilidades e oportunidades. Isso é muito 2026!”
Com sua observação, ajuste metas, refine processos, redistribua recursos e atualize o plano de ação. Anote isto: ESG é dinâmico, não estático.
E cada movimentação nessa última etapa do processo vai demonstrar maturidade, previsibilidade e compromisso ao mercado.
Como o mercado sabe que é uma empresa ESG?
Características que vêm da revisão de indicadores-chave de desempenho são rapidamente identificadas pelos stakeholders no geral.
Considere-as evidências que permitem que investidores, clientes, parceiros e até órgãos reguladores reconheçam quando uma organização atua de maneira responsável e alinhada às boas práticas ESG.
Além disso, saiba que não basta que um gestor apenas afirme “minha empresa é ESG”. Em qualquer situação, para o mercado ter certeza de que a afirmação é verdadeira, será preciso provas.
Aliás, mesmo que ninguém questione, se você deseja ver sua organização com reputação fortalecida, acessando novos mercados, participando de cadeias de fornecimento mais exigentes, atraindo investidores, disputando editais etc., será preciso mostrar:
- Transparência e consistência de dados e relatórios
- Aderência a padrões reconhecidos internacionalmente
- Reconhecimento em rankings e certificações independentes
- Histórico real de ações, metas cumpridas e resultados concretos
- Coerência entre discurso e prática (+ evidências auditáveis)
Ser ESG, no fim das contas, também é ser verificável. E Natura, Boticário, Ambev, Microsoft, Unilever, dentre tantas outras organizações de diversos portes e setores, deixam isso ainda mais claro.
O quadro adiante as apresenta um pouco melhor, para lhe trazer referências práticas e comparáveis que podem orientar sua tomada de decisão e fortalecer a maturidade ESG da sua empresa.
Referências em ESG no Brasil e no mundo | |
|---|---|
| Empresa | Exemplos de ações |
| Natura | Cadeia de fornecimento amazônica sustentável, emissões compensadas e práticas avançadas de governança |
| Boticário | Rastreabilidade de ingredientes, programas de circularidade e iniciativas sólidas de impacto social |
| Ambev | Uso eficiente da água, projetos de logística sustentável e compromissos de diversidade reforçam sua reputação |
| Unilever | Redução de plástico virgem, cadeias responsáveis e políticas robustas de direitos humanos |
| Microsoft | Investimentos em energia renovável, inclusão digital e transparência em governança |
| IKEA | Forte investimento em reflorestamento e circularidade de produtos |
| Reserva | Programa em que 1 peça vendida gera 5 pratos de comida para pessoas em situação de insegurança alimentar, diversidade e impacto comunitário |
| Wise Waste | Conexão de indicadores ambientais, rastreamento e eficiência operacional |
Percebe como não é questão de ser politicamente correto?
Ser ESG hoje é mais do que obrigação
Adotar metas concretas em ESG é uma decisão estratégica, de competitividade, risco e perenidade para toda e qualquer empresa atualmente, e internalizá-las através de governança, cultura, métricas e ações consistentes é sinônimo de melhor posicionamento para:
- Enfrentar riscos regulatórios e de reputação
- Atrair clientes, investidores e talentos conscientes
- Construir resiliência e adaptabilidade
- Gerar valor sustentável no longo prazo.
Se nos últimos anos, o mercado evidentemente tem exigido mais transparência e responsabilidade, de 2026 em diante, “ser ESG” estará cada vez mais “incluído” no preço de entrada da verdadeira competição de mercado.
Então, quem estiver preparado sai na frente.
Sugestão para você começar
Aceita uma ideia de prioridades mínimas para dar o start na sua Agenda ESG de 2026?
Experimente focar em transparência e governança consistente (governança + compliance + ética) no pilar G, clima e ambiente (uso de energia, emissões, recursos naturais) no pilar A e diversidade, inclusão, justiça interna e saúde física e mental no pilar S.
E, em vez de tentar fazer tudo sozinho, sem método e no improviso, considere o apoio de uma mentoria estratégica.
Um olhar externo, experiente e acostumado ao ambiente corporativo, pode lhe ajudar a organizar prioridades, evitar armadilhas comuns, traduzir conceitos em decisões práticas e construir um plano que faça sentido para o estágio do seu negócio.
Boa sorte no processo!